“Minha estratégia agora é ficar quieto”, diz Elie Horn

Elie Horn: "O novo jogo é exatamente o oposto do que  era há seis meses. Nós estamos tentando nos adaptar  porque não temos outra saída. Se você não se adaptar,  ou você enlouquece ou vai à falência".  Folha Imagem

Elie Horn: "O novo jogo é exatamente o oposto do que era há seis meses. Nós estamos tentando nos adaptar porque não temos outra saída. Se você não se adaptar, ou você enlouquece ou vai à falência". Folha Imagem.

Em uma rara entrevista, o controlador da Cyrela Elie Horn fala sobre as perspectivas para o setor da construção civil em 2009
Elie Horn: “O novo jogo é exatamente o oposto do que era há seis meses. Nós estamos tentando nos adaptar
porque não temos outra saída. Se você não se adaptar, ou você enlouquece ou vai à falência”.

Elie Horn é um empresário discreto, de quem apenas o setor ouviu falar. Mas sua empresa está entre as mais conhecidas no país. A Cyrela Brazil Realty é a maior incorporadora e construtora de imóveis residenciais do Brasil, operando em 17 estados e 55 cidades – além da Argentina.

Horn fundou a companhia em 1978. Desde então ele é o presidente. Desde 1994, passou a ocupar o cargo de chairman e presidente executivo da Cyrela. Foi nesse ano, aliás, quando havia um aperto de crédito no mercado, em vez de tentar um empréstimo nos bancos, a empresa adiantou dinheiro aos bancos e trabalhou com seu capital, dando financiamento aos clientes. O crescimento aconteceu porque a empresa não tinha de pagar juros – ao contrário, recebia juros. “Nós não gostamos de seguir tendências. Gostamos de pensar e criar nossa própria tendência, em vez de sermos escravos da situação”.

Em rara entrevista ao Knowledge@Wharton, Elie Horn diz que a Cyrela cresceu de 80% a 90% ao ano na venda de imóveis residenciais nos últimos três ou quatro anos. “O crescimento no Brasil aconteceu nas faixas de baixa renda, média renda e alta renda. Atingiu todos os setores do Brasil”. Ele não acredita que a empresa mantenha o mesmo patamar de crescimento no próximo ano.

Projetos da Cyrela em São Paulo e Belo Horizonte: vendas aquecidas e crescimento de 80% nos últimos
quatro anos não devem se sustentar em 2009, prevê Horn.

Apesar de seu alcance, a Cyrela, assim como todas as outras construtoras do país, deve sofrer os efeitos da crise mundial que fez com que o setor da construção civil reduzisse o ritmo forte que vinha mantendo nos últimos anos. O próprio Elie Horn admite que o jogo mudou muito rapidamente. “O novo jogo é exatamente o oposto do que era há seis meses. Nós estamos tentando nos adaptar porque não temos outra saída. Se você não se adaptar, ou você enlouquece ou vai à falência”.

Horn explica que embora os tempos sejam difíceis, o Brasil não possui os mesmos problemas do mercado americano e diz que é apenas uma questão de cuidar dos negócios, esperando que a confiança volte ao mercado. “O Brasil não é uma ilha. Em um mundo globalizado, todo mundo tem que pagar o preço e o Brasil também está fazendo isso”.

Com a crise, todos se preocupam com o amanhã e isso afeta o mercado imobiliário. Horn acredita, entretanto, que o nervosismo vai passar rapidamente, já que comprar imóveis é um “porto seguro, não é um negócio especulativo”.

“No Brasil, as pessoas compram apartamentos para morar, não para especular. Então se tudo vai mal no setor financeiro, ao menos eles sabem que as propriedades continuam sendo deles. Ela não vão desaparecer”, diz.

O mercado brasileiro é bastante diferente do mercado imobiliário americano. Para começar no Brasil não existe empréstimo subprime, que iniciou a crise financeira nos Estados Unidos. No Brasil, propriedades são 2% a 5% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos Estados Unidos, vai de 80% a 90%. Ainda assim, como os bancos brasileiros não estão emprestando dinheiro, Elie Horn acredita que a melhor estratégia é “não fazer nada, se possível”. “Minha estratégia agora é ficar quieto, sem lucrar com a crise, esperar e então decidir quando a situação ficar mais calma”.

Algumas pessoas dizem que quando o mercado despenca, como agora, oferece boas oportunidades de compra.
Horn
: A história da nossa empresa mostra que fazemos dinheiro quando há um boom, não quando há uma crise. Quando há uma crise, o melhor é ficar quieto. Nós não gostamos de especular. Preferimos ficar seguros. Quando há uma crise, fique quieto. Quando há um boom, você tem que se mover rapidamente.

Embora você diga que o Mercado está em baixa, sua empresa lançou um novo prédio há pouco tempo que foi totalmente vendido em um único dia. Como você conseguiu isso?
Horn:
Eu não queria dar financiamento de longo prazo para os compradores. Não queria pedir dinheiro aos bancos para o financiamento porque as taxas são muito altas. Então eu propus o seguinte aos compradores: nós lançaríamos o projeto se ele pudesse ser auto-financiado. Com isso conseguimos vender o prédio inteiro em mais ou menos 48 horas – em média com 30% em dinheiro, os restantes 70% em 36 meses. Nós estamos pensando em seguir nessa direção no futuro. Não queremos mais fazer financiamento de 10 a 12 anos ou pedir aos bancos. Gostaríamos de ser financiados pelos compradores, se possível.

Na sua longa carreira, qual foi o desafio de liderança mais duro que você teve de enfrentar?
Horn:
Meu maior desafio foi convencer as pessoas que o mundo tinha mudado. A posição de um líder é acessar a situação e tentar mudar a direção. As pessoas não gostam disso. É muito difícil fazer as pessoas mudarem de direção. As pessoas pensam que tudo é fácil, tudo é estável. As coisas mudam na vida e você tem que mudar com elas. Então a coisa mais difícil é fazer as pessoas mudarem sua maneira de pensar.

Você poderia dar um exemplo concreto?
Horn:
Nesta crise tem sido difícil falar com as pessoas sobre a situação. As pessoas não querem enxergar a verdade. As verdades mudam, as verdades dos negócios mudam e as pessoas não gostam de mudar aquilo que era verdade para eles. O segundo ponto é tentar ver em que ponto você está para ver o que você tem que fazer. Além de lidar com as pessoas, você precisa conhecer o mundo em que está e como sua companhia deve reagir. Nós estamos gastando de quatro a cinco horas por dia somente para entender em que ponto estamos.

Como você faz isso?
Horn:
Falando com economistas, banqueiros e analistas todos os dias e lendo tudo o que podemos sobre a situação econômica.

Como você define sucesso?
Horn:
Sucesso é quando você faz menos erros do que acertos.

Fonte: EPOCA NEGOCIOS – 19 /12/ 08

Leave a Comment